quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Cheiros

Nos meus dezesseis anos eu nunca tinha beijado uma boca masculina. Nem um selinho. Nem sequer um beijo roubado. Porque eu era feia, os meninos não queriam ficar com Dandara feia estranha do colégio que tinha o cabelo estranho. Que se vestia estranho. Até porque eu era amiga da menina mais linda legal popular do colégio. Por que ter pouco se você pode ter muito, certo? Errado. Eu era boba na época. Bem mais boba do que loba na época. Loba boba boba. Agora em uma palavra uma letra perdeu lugar pra outra, me tornei loba loba boba, mesmo que ainda tenha desilusão, mesmo que ainda não tenha inspirado pro meu corpo o cheiro nem da letra a do amor, correspondido ao menos.

Nos meus dezesseis anos eu e minhas amigas éramos do rock (leia-se hardcore). Eu era fã de dead fish, ia até pra roda punk. E na modinha do hardcore existia uma pá de bandas nesse estilinho, menininhos usando hemp, distorcendo guitarras, fazendo música em protesto ao mundo a sociadade ao milho aos cachorros ao saci pererê, a vida afora. E tinha a banda do momento. A banda do mocinho que arrabatava o coração de todas as meninas do Instituto Helena Lubienska, meu antigo colégio. A banda do namorado da minha ex-melhor amiga, que era a menina a menina mais linda legal popular do colégio. A banda. O cara, e eu, o patinho feio da história.

Nos meus dezesseis anos eu sempre sonhava com meu primeiro beijo. Entre as minhas amigas eu era a única que não tinha beijado, e morria de vergonha disso. Quando a gente ia fazer daqueles testes "você conhece mesmo sua amiga?" da revista atrevida que eu assinava, na pergunta "como foi seu primeiro beijo?" e eu desolada e envergonhada preenchia com o sinal de inexistente, aquele que se usa nas equações matemáticas. Fiquei fazendo isso durante um bom tempo. Bom mesmo. Até O cara, o que arrasava corações chegar na minha vida.

Eu tinha quinze anos, ainda me lembro, nitidamente do momento da minha primeira paquera na vida. Quer dizer, foi uma paquera unilateral, do lado dele. Lembro até da minha roupa, e isso de lembrar de roupa ficou em mim até hoje. Lembro de todas as roupas que eu usei em todos os momentos que estive com os homens que já passaram na minha vida - e olhe que não foram tão pouquinhos não. Eu usava uma calça tenebrosa boca de sino com uma blusa cor-de-rosa que uma amiga havia me emprestado, e o cabelo nessa época não ajudou muito. Não sei como O cara do sonho de todas as gurias do meu colégio veio reparar logo em mim. Eu, Dandara feiosinha do primeiro ano B. Eu não tava entendendo porque ele tava tão perto de mim, tão falante. Se jogando pra cima de mim como um moleque se joga pra cima de uma bola. Porque ele passava aqueles cabelos lindos no meu pescoço "talvez ele esteja sozinho aqui e não tenha mais ninguém pra conversar, vou ser legal né?". Eu não entendia nada, só sorria, toda abobalhada. Ele era O cara, e tava ali do meu lado, do MEU lado, me querendo do lado dele, me fazendo rir.

É engraçado lembrar disso, de como as coisas surgem na gente. O indício da vida, das paixonites. De que alguém pode me desejar.

"Mas Luiza, Pablo tá muito engraçado comigo!" e eu ria, ria muito. F-r-e-n-e-t-i-c-a-m-e-n-t-e. Ele me chamou pra ir com eles pra um outro show depois dos que ia ter no colégio, e eu sem entender porque. "Ele quer ficar contigo, sua boba" A partir daí eu entrei em desespero e comecei a pular por dentro. Que nem pipoca. Bem tabacuda. (tabacuda pra quem não sabe é uma pessoa retardadinha, idiotinha). E ele vinha, me olhava, me analisada. Me querendo bem muito. Chegou até a beijar meu pescoço. E eu só me lembrava o quanto todas as garotas o queriam. O quanto todas as garotas babavam por ele nos shows, quando ele tinha namorada. Mas ele queria a mim. E me teve bem depois. Boca a boca.

Nos desencontramos por uns meses, mas depois graças a boa e velha internet ele me achou. Pelo fotolog. É, meu passado é cafuçu. Hardcore, roda punk, fotolog, coisas emo. Mas quem nunca foi cafuçú? Todo dia meu coração de adolescente encantada ficava na mão, esperando por um novo comentário dele, que era sempre lindo, sempre me elogiando. Foi a primeira vez na minha vida que eu me senti bonita, e desejada por isso. Mulher. (até ficar mais velha e descobrir que isso é uma tática dos homens pra te conquistar. Ou ele realmente te acha bonita. Porque você é. Ou pra te derreter). Eu bem boba, bem fofa e esperta adicionei O cara no msn. A partir daí travamos madrugadas de conversas e mais conversas de todos os gêneros. Eu queria ser física, estudar a matéria, principalmente as estrelas, e ele também. Nosso futuro ia ser lindo junto. Com amor e tudo.

Foi com ele meu primeiro encontro, mas cult impossível. Fui convidada pra sair e nos encontrarmos na torre Malakoff, no Recife antigo. Observar o céu, as nuvens, e quem sabe nos beijar as altura. Eis que minha tia me aparece pra estragar tudo. E me deixar mais nervosa do que já estava, pensando se seria naquele dia que eu ia sentir pela primeira vez o gosto da boca de um menino. A gente resolveu passear, nem de mão dadas nem nada, mas incrivelmente ele resolveu me pagar uma água de côco, e eu fiquei encantada com aquilo. Nunca tinha ganhado nada de ninguém, nem uma folha de papel. O fim, e o começo de tudo, foi na livraria cultura. Num show. No escuro. O ambiente próprio pra um beijo. Ou quem sabe mais.

E no meio de uma música os lábios dele vieram caminhando pelo lado esquerdo do rosto até econtrarem os meus. Eu já havia treinado com gelo, laranja, travesseiro, mão e tudo. Foi bom. Foi lindo. Foi tão bom que depois que eu comecei a rir porque eu tava nervosa ele não acreditou que os risos estúpidos eram porque eu nunca tinha beijado ninguém. Mas eu olhava nos olhos dele, bem fundo. Eu podia ouvir os pensamentos dele, que ele queria me beijar denovo. E denovo. E a gente caiu em outros beijos. Eu usava uma camiseta branca, com uma saia roxa desbotada em rosa. Meu cabelo era trançado, até abaixo dos ombros. Nesse dia eu senti o gosto de uma boca. Em outro eu senti o gosto de outras. Posso não ser mais bv. Posso ser experiente em beijos, em corpos, em carícias. Mas não sou experiente em sentimentos. Só nos platônicos. Do amor, só inspirei o cheiro que me faz querer mais da letra a. Todo lábio que sinto é como se fosse aquele dia de janeiro de 2006, como meu primeiro beijo. Um primeiro passo pra um sentimento.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Yo de mentira

"Não diga que as estrelas estão mortas só porque o céu está nublado"

después de la lluvia, viene la calma. Qué pronto es. y es es es.








Nueve mujeres que nunca se han reunido, o visto, pero ha una cosa en común: un escrito.

mi textos en las siguiente fecha: 10 y 14 de diciembre. Besos en sus corazones, hermosos y hermosas.

Sobre o amor e o trabalho silencioso


I might as well be reaching for the moon